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Reflexões sobre Perdas e Desperdício de Alimentos

29/09/2026

Em um mundo que precisa produzir e distribuir alimentos para uma população crescente, convivemos com uma contradição difícil de aceitar: enquanto milhões de pessoas ainda enfrentam algum grau de insegurança alimentar, uma parcela significativa dos alimentos produzidos não chega ao consumo.

O Dia Internacional de Conscientização sobre Perdas e Desperdício de Alimentos, em 29/09, nos convida a ir além da constatação do problema. Precisamos transformar conhecimento em ação e compreender que reduzir perdas significa também melhorar a eficiência econômica, preservar recursos naturais, diminuir custos e fortalecer a segurança alimentar.

Nesse desafio, inovação tecnológica e inovação social precisam caminhar juntas. Há um enorme espaço para utilização de tecnologias no planejamento da produção, previsão de demanda, logística, armazenamento, rastreabilidade, controle de estoques e monitoramento da qualidade dos alimentos. Dados e inteligência artificial podem contribuir para aproximar oferta e demanda e identificar, com antecedência, onde estão ocorrendo perdas ao longo da cadeia. Mas tecnologia, sozinha, não resolverá o problema.

Precisamos igualmente de inovação social. Significa criar novos modelos de cooperação entre produtores, centrais de abastecimento, atacadistas, supermercados, restaurantes, bancos de alimentos, organizações sociais, governos e consumidores. Alimentos adequados ao consumo humano não podem ser tratados simplesmente como resíduos porque perderam determinado padrão comercial ou estético.

É justamente nessa articulação que as centrais de abastecimento podem assumir um papel ainda mais relevante. Reforçando parcerias com a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), MDS (Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome), MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar), Instituto Fome Zero e Pacto contra a Fome, faz toda a diferença, não só na mudança de hábitos alimentares, mas, principalmente no aproveitar tudo aquilo que está sendo produzido e enviado às Centrais de Abastecimento Alimentar.

Grandes mercados atacadistas são pontos de convergência entre produção e consumo. Por essas estruturas, circulam diariamente milhares de toneladas de frutas, legumes, verduras e outros produtos. Por isso, esses espaços também podem atuar como verdadeiros laboratórios de inovação para a redução das perdas alimentares.

Na CEAGESP (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo), essa discussão está diretamente relacionada à modernização do sistema de abastecimento. Melhorar infraestrutura, logística, embalagens, armazenamento, manejo dos produtos e destinação dos alimentos excedentes significa aumentar a eficiência de toda a cadeia de produção e de distribuição de alimentos.

O Banco CEAGESP de Alimentos (BCA) comprova que parte daquilo que poderia se transformar em desperdício ainda pode chegar à mesa de quem precisa. Mas devemos avançar e também evitar que o desperdício seja gerado.

Isso demanda um acompanhamento sistemático. Precisamos conhecer quanto, onde e por que se perde e quanto custa essa perda. Sem indicadores confiáveis, o desperdício permanece parcialmente invisível. A agenda futura, portanto, deve combinar prevenção, tecnologia, infraestrutura, educação, aproveitamento integral, doação e economia circular.

Supermercados e centrais de abastecimento têm muito a contribuir conjuntamente nessa agenda. O que acontece no atacado repercute no varejo; o comportamento do varejo influencia produtores e distribuidores. Não existem soluções duradouras quando cada elo da cadeia trabalha isoladamente. A transformação dos sistemas alimentares depende justamente dessa capacidade de cooperação.

Reduzir perdas e desperdício não significa apenas salvar alimentos. Significa economizar água, energia, trabalho, transporte, embalagens e recursos financeiros utilizados para produzir aquilo que nunca será consumido. Talvez devamos começar por uma pergunta muito simples: se não rasgamos dinheiro e nem o jogamos fora, por que aceitamos fazer isso com os alimentos?

O alimento tem valor econômico, ambiental e, sobretudo, humano. Transformar essa consciência em novas práticas é responsabilidade de todos nós. E pode ser também uma das grandes oportunidades para construirmos um sistema brasileiro de abastecimento alimentar mais moderno, eficiente, sustentável e socialmente justo.

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