24/06/2026
Pesquisadores e empresas apresentaram tecnologias que transformam subprodutos agrícolas em bioplásticos, embalagens compostáveis e materiais técnicos para a indústria agrícola, alimentícia e automotiva.
Os resíduos gerados pela indústria agroalimentar podem se tornar uma matéria-prima fundamental para a fabricação de materiais sustentáveis capazes de substituir alguns plásticos derivados de combustíveis fósseis. Essa foi uma das principais conclusões de uma conferência organizada pela Fundação Grupo Cajamar, é uma instituição espanhola ligada ao cooperativismo de crédito , onde centros tecnológicos e empresas apresentaram avanços em bioplásticos, materiais compósitos e soluções feitas inteiramente de fibras vegetais.

Atualmente, a União Europeia gera mais de 55 milhões de toneladas de plástico por ano, mas apenas uma pequena fração desse resíduo é reciclada. Limitações técnicas, o alto custo da reciclagem e a complexidade de muitos materiais de embalagem tornam necessário o desenvolvimento de alternativas que reduzam a dependência de polímeros derivados de combustíveis fósseis.
Bioplásticos obtidos por fermentação
María Nicolás Liza, chefe do departamento de Biotecnologia do CETEC Biotechnology, empresa localizada em Alhama de Murcia, na Espanha., explicou o desenvolvimento de bioplásticos da família PHA, especialmente o PHBV, obtidos por meio da fermentação de resíduos agroalimentares utilizando microrganismos.
Esses materiais apresentam uma vantagem significativa: além de serem feitos de matérias-primas renováveis, são biodegradáveis e podem ser processados com as máquinas convencionais utilizadas pela indústria de plásticos. O processo utiliza resíduos da indústria agroalimentar, que são condicionados e fermentados para permitir que microrganismos acumulem o polímero em seu interior. Posteriormente, o material é purificado e transformado em grânulos adequados para a fabricação de embalagens, cobertura vegetal agrícola, suportes para plantas, produtos biomédicos e recipientes cosméticos.
No entanto, a industrialização em larga escala ainda enfrenta desafios como a variabilidade dos resíduos, o custo da purificação e a necessidade de uma legislação que incentive a substituição do plástico convencional.
Fibras vegetais transformadas em novos materiais.
A Fundação AITIIP, instituição privada sem fins lucrativos, localizada em Zaragoza, Espanha, apresentou diversos projetos que valorizam subprodutos agrícolas como fibras de lúpulo e banana, cascas de frutas cítricas, restos de brócolis, couve-flor e espinafre, penas de aves, resíduos de crustáceos e amido recuperado da lavagem de batatas. Esses materiais possibilitam a fabricação de cordas biodegradáveis para a agricultura, embalagens compostáveis, filmes ativos capazes de prolongar a conservação de alimentos, filamentos para impressão 3D e coberturas agrícolas com funções específicas, como o controle de certas pragas.
De acordo com os pesquisadores, o objetivo é utilizar todos os fluxos de resíduos como matéria-prima para produtos de maior valor agregado, reduzindo simultaneamente o desperdício de recursos.
Materiais feitos exclusivamente de fibras vegetais
A empresa Feltwood Ecomateriales estabelecida em Zaragoza, Espanha apresentou uma alternativa diferente, baseada exclusivamente em fibras vegetais, sem o uso de plásticos, adesivos ou produtos químicos.
Sua tecnologia transforma resíduos de laranjas, beterrabas ou brócolis em materiais termo moldados que combinam propriedades semelhantes as do papelão, da madeira e de alguns plásticos. As aplicações incluem bandejas para alimentos, itens decorativos, peças automotivas e outros produtos compostáveis.
O desafio já não é a tecnologia
Os conferencistas concordaram que a tecnologia necessária para substituir parte dos plásticos derivados de combustíveis fósseis já existe e comprovou a sua viabilidade em escala piloto. No entanto, o principal obstáculo continua sendo a escala industrial. O financiamento de novas fábricas, a competitividade em relação aos plásticos convencionais e o desenvolvimento de uma legislação que favoreça o uso de biomateriais continuam sendo os principais desafios para acelerar sua implementação.
Especialistas também destacaram o papel estratégico do setor agroalimentar, que pode transformar seus próprios resíduos em novas matérias-primas para a indústria, promovendo modelos de economia circular e gerando novas oportunidades de valor agregado.




