08/05/2026
A resposta para essa pergunta é: mais complexa do que parece. Durante uma estadia de pesquisa na Universidade de Melbourne (Austrália), o Dr. Guillermo Toro, do Laboratório de Fisiologia do Estresse do CEAF, trabalhou com uma abordagem que agora está na vanguarda da ciência: desenvolver conhecimento e tecnologias para que as plantas possam crescer em condições extremas — como no espaço — e, ao mesmo tempo, transformar esse aprendizado em ferramentas concretas para uma agricultura mais resiliente na Terra.

Esta estadia foi desenvolvida sob a supervisão do Dr. Sigfredo Fuentes, em colaboração com o seu grupo de Agricultura Digital, Ciências Alimentares e Vinícolas (DAFW), composto pela Dra. Claudia González Viejo, Natalie Harris e Dr. Arturo Mayorga, e também com a participação do Engenheiro Agrônomo Pablo Félix, do Instituto Tecnológico de Monterrey, e em coordenação com o Centro de Excelência em Plantas para o Espaço (P4S) da ARC, uma rede internacional que integra universidades, agências espaciais e empresas de tecnologia para projetar sistemas de produção vegetal eficientes, autônomos e sustentáveis.
Por que as “Plantas para o Espaço” são importantes para o Chile
Missões espaciais de longa duração — por exemplo, aquelas planejadas para a Lua ou Marte pelo programa Artemis da NASA — exigem Sistemas de Suporte à Vida Bioregenerativos (BLSS, na sigla em inglês), nos quais as plantas desempenham um papel central: elas produzem alimento fresco e oxigênio, e contribuem para a reciclagem de água e nutrientes. Mas o desafio é significativo: em ambientes fechados com recursos limitados, qualquer falha (estresse hídrico, doença, problemas de ventilação) pode comprometer todo o sistema.
Esses problemas também são comuns na agricultura chilena. A megaseca, o aumento das temperaturas e os eventos climáticos extremos tornam essencial antecipar o estresse antes que ele se torne visível. Nesse ponto, o projeto de pesquisa “Plantas para o Espaço” se torna um laboratório para inovação acelerada: “Se podemos monitorar e corrigir a condição de uma planta sob condições tão rigorosas como em um sistema fechado, podemos ter resultados ainda melhores em um pomar ou vinhedo”, afirma o Dr. Toro.
Uma parte significativa da estadia consistiu em experimentos com um sistema Clinostato 2D (mini-parcela rotativa), uma ferramenta que simula a microgravidade por meio de rotação contínua. “Essa abordagem nos permite estudar como a arquitetura, o crescimento e a fisiologia das plantas se alteram quando o ponto de referência gravitacional é modificado, um componente fundamental na exploração espacial. Esses experimentos nos ajudam a compreender os mecanismos básicos de adaptação das plantas a condições físicas estressantes e a desenvolver protocolos experimentais comparáveis entre laboratórios”, explica o Dr. Toro.
Segundo o pesquisador chileno Dr. Sigfredo Fuentes, que agora vive na Austrália, “a mera ideia de agricultura no espaço, ou de cultivar alimentos em microgravidade (uma gravidade menor que a da Terra), vai além de pensar fora da caixa; é pensar fora do planeta. Os problemas apresentados pelas mudanças climáticas foram graduais até o início do século XXI, mas já perdemos muito tempo reagindo.”
Este trabalho, no âmbito do projeto “Plantas para o Espaço”, como explica o cientista do CEAF, “é muito mais do que ciência para missões espaciais: é uma forma de acelerar soluções para a agricultura atual. O que aprendemos cultivando em condições extremas retorna à Terra transformado em ferramentas para produzir melhor, com menos recursos e com maior adaptabilidade.”
A estadia foi possível graças ao apoio do CEAF, através do Laboratório de Fisiologia do Stress, coordenado pela Dra. Paula Pimentel, e ao financiamento da Agência Internacional de Energia Atômica, através do Projeto TC FS-CHI5055-2500315, liderado pelo Dr. Ariel Salvatierra.
Fonte: ceaf.cl




